18-05-2006

Opinião do Internista: Evacuação de doentes para o exterior: Algumas sugestões

“Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar, mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota” – Madre Teresa de Calcutá

Por: Frederico Sanches*
Dando sequência ao artigo intitulado “a outra Face da doença”, publicado recentemente neste Jornal, venho hoje apresentar algumas propostas que considero poderem contribuir para melhorar as condições dos doentes em Cabo Verde, caso venham a merecer a atenção devida por parte dos responsáveis políticos (de Cabo Verde e de Portugal), mas, também, por parte dos cabo-verdianos espalhados por esse mundo fora. Tendo em conta a pertinência do assunto gostaria de poder contar com a colaboração cuidadosa de todos aqueles que se preocupam com o desenvolvimento do país e com o bem-estar dos seus conterrâneos. Gostaria que me enviassem comentários, críticas e sugestões de modo a permitir maior rigor na elaboração de um documento oficial que pretendo enviar ao governo de Cabo Verde, manifestando a preocupação da sociedade civil, a sua vontade e o seu inevitável envolvimento na resolução de um problema que, directa ou indirectamente, nos toca a todos.

Cabo Verde enfrenta, actualmente, o grave problema da falta de médicos especialistas e de condições materiais necessários para o diagnóstico precoce, atempado seria a terminologia mais adequada, da maioria das patologias crónicas. As doenças Oncológicas são diagnosticadas tardiamente e a evacuação dos doentes é feita numa fase em que o tratamento curativo é impossível, portanto são evacuados para paliação (só!). Tais evacuações mais não são do que desperdício de dinheiro e aumentam o sofrimento do paciente, que se vê condenado a morrer longe da família. A formação de especialistas requer dinheiro e tempo, consequentemente, não vai ser solução para o país a curto prazo. O regresso definitivo dos muitos especialistas na diáspora não tem sido possível e as razões podemos discutir num próximo trabalho.
A OMEC (organização médica cabo-verdiana) foi criada em Portugal com, entre outros, o objectivo de ajudar Cabo Verde a minimizar os efeitos da falta de médicos especialistas no país. O seu relacionamento com o ministério da saúde e com os médicos residentes em Cabo Verde não tem sido, por razões, quanto a mim, ultrapassáveis, o desejável. Penso que se conseguirmos ultrapassar algumas atitudes que, por vezes ameaçam os limites da imaturidade intelectual, a OMEC se encarregaria de enviar médicos especialistas para fazerem consultas pontuais e organizadas no país. A nossa experiência seria, obviamente, a curto prazo, aquela mais valia necessária para melhor caracterização da sociedade cabo-verdiana em termos patológicos, despiste das situações de risco e, sobretudo, para o reconhecimento dos doentes que necessitam de cuidados inexistentes no país. A OMEC pretende trabalhar de forma desinteressada, com custos mínimos para o país, e considera-se em condições de colaborar, como conselheiro, com as autoridades cabo-verdianas na resolução deste problema. O bom entendimento entre todos os cabo-verdianos (a distância não pode ser considerada falta de cabo-verdianidade) será, provavelmente, uma condição indispensável para o desenvolvimento do país.

Aproveitando as novas tecnologias e as facilidades de comunicação através da Internet, a telemedicina deve merecer a nossa especial atenção. A OMEC tem médicos com conhecimentos de informática que poderiam ser aproveitados no sentido de se criar um mecanismo de intervenção onde seriam aproveitados os conhecimentos e as experiências dos médicos cabo-verdianos espalhados por esse mundo fora. Pensamos, pois, que o desenvolvimento da telemedicina é útil para o país.

A junta médica cabo-verdiana tem a responsabilidade de propor a evacuação de doentes para o exterior. As autoridades portuguesas estudam as propostas e, caso aceites, decidem sobre a instituição hospitalar a receber o referido doente. Conhecendo a burocracia portuguesa é fácil de perceber que se trata de um processo bastante demorado. A nossa proposta é que Cabo Verde faça pressão para que haja uma representação, um médico cabo-verdiano (ou a própria OMEC), junto da instituição portuguesa responsável por esse processo (direcção geral de saúde). Atenção não pretendemos fazer parte da direcção geral de saúde em Portugal, pretendemos sim, uma colaboração voluntária com àquela instituição. O objectivo seria fazer pressão para que as decisões fossem tomadas em tempo oportuno. É claro que estaremos lá para importunar!

Conhecendo a distribuição dos doentes pelos diversos hospitais portugueses e os respectivos diagnósticos, a OMEC se encarregaria de indicar, em cada hospital, um médico cabo-verdiano para acompanhar de perto a evolução dos doentes e servir de intermediário com o corpo clínico responsável. Este processo, de certo modo, vem sendo feito, de forma isolada, por médicos como a Dra. Helena Lopes da Silva do Hospital de Santa Maria ou o Dr. João Galvão do Hospital de S. Francisco Xavier. É preciso, no entanto, que tais acções sejam organizadas e tenham a conivência das autoridades cabo-verdianas. Obs: Neste preciso momento acabo de ser informado que médicos da junta médica cabo-verdiana se encontram em Lisboa para analisar a situação dos doentes. Não foi solicitado apoio a OMEC nem a nenhum médico cabo-verdiano a trabalhar em Portugal, porquê? Mais uma vez, pensamos que o início de um diálogo franco, honesto e humilde, entre todos, é imprescindível.

A solidariedade de todos os cabo-verdianos é indispensável neste processo. A sociedade civil tem, pois, um papel importante também a desempenhar. A Sra. Grace Beatriz, autora do livro “saudades do Danny”, pretende criar uma fundação destinada a ajudar os doentes cabo-verdianos evacuados para Portugal. Tendo acompanhado de perto a situação de um jovem cabo-verdiano que morreu em Lisboa, vítima de Leucemia, esta grande SENHORA ficou bastante sensibilizada com a situação dos doentes oncológicos e tem-se manifestado uma verdadeira heroína na procura de possíveis soluções para o problema. A Grace vive na Holanda e pretende criar uma fundação para apoiar os doentes cabo-verdianos em Portugal. A iniciativa é de louvar e merece o apoio – também financeiro – de todos os cabo-verdianos. Aproveito, assim, a liberdade que me é concedida neste espaço para pedir, em nome da Grace e em meu nome pessoal, a colaboração de todos neste grandioso projecto, pois, é bom que tenhamos sempre presente a frase de A. Montagú: “ao perdermos o interesse apaixonado pelos nossos semelhantes, perdemos a capacidade de sermos felizes”

*Assistente Hospitalar Especialista em Medicina Interna
fems@netcabo.pt

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